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O Primeiro Romântico

iFood sexual: o sexo rápido desprovido de envolvimento e inteligência

Universa

01/12/2017 08h00

 

As pessoas não se conhecem mais presencialmente. Estão medrosas na sedução. Os aplicativos e as redes sociais vêm matando a coragem. O que noto é uma fobia da intimidade. É sexo sem intimidade, é sexo sem o mais bonito da relação: a amizade do corpo e das palavras.

São cenas patéticas: o homem descobre o nome da mulher interessada e some do bar, evapora da balada, não entabula nenhuma curiosidade, não realiza nenhum pergunta, não desenvolve nenhuma aproximação, não explora o seu raciocínio, prefere chamar no inbox do Facebook para conversar em segredo aquilo que deveria fazer presencialmente. Isso quando não caça a pessoa no Tinder ou no Happn para cortejar mais diretamente. Ele se tornou preguiçoso, crianção, infantil, confinado na bolha tecnológica da facilidade. Tem medo frente a frente, de encarar respostas imprevisíveis e improvisar. Ele não sabe mais agir no calor dos acontecimentos. Não deseja se machucar e enfrentar a vida. Não se mexe para articular a fala e criar afinidades. Treme com a possibilidade de ser sabatinado por uma turma estranha e interagir em grupo para estreitar os laços e ganhar o espaço ao lado de uma atração. Seu projeto é conquistar alguém sem sair do quarto.

A timidez coletiva é pavor do sofrimento real, das cicatrizes e dissabores. O enamoramento virou um game, com bonecos de emojis e joystick na mão.

Assim como ele tampouco quer perder tempo com gentilezas e agrados. Ambiciona o iFood carnal, a tele-entrega virtual imediata, o sexo rápido desprovido de envolvimento, inteligência e memória. A operação canhestra se desenvolve em duas frases: gostei de você e vamos nos encontrar. O contato depende apenas de duas frases tecladas absolutamente genéricas para se chegar à cama.

Ou seja, foge-se do encontro inicial para agendar pela web, de modo lacônico, um encontro de verdade. Mas o encontro somente pode acontecer quando tudo estiver resolvido e nada mais precisa ser dito.

O flerte digital também disfarça o assédio e as grosseiras que seriam mais visíveis cara a cara. É um silenciador de ofensas e ameaças, já que tem a impunidade do jogo rápido do celular e do bloqueio do número e da conta.

Vivemos um conto de fadas de avatares. Nem o amor nem a dor são reais, dando lugar a felicidade e tesão artificiais.

 

Sobre o autor

Fabrício Carpinejar é escritor e jornalista. Enquanto muitos se elegem como último romântico, ele se declara como o primeiro. Afinal, faz tempo que se prontificou a entender o amor em suas crônicas e poesias. Aqui você tem sua versão escrita, mas você pode conferir a sua versão falada em vídeos no YouTube: http://bit.ly/2sAu6xB

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