O Primeiro Romântico

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Dizer não é uma prova de amor

UOL Estilo

19/01/2018 08h00

Não aceitar o não é a mais grave falha do amor. Não haverá amadurecimento sem a negação. A discordância é benéfica e deve ser praticada um pouco por dia, por mais desgastante que seja o cotidiano doméstico. 

 

É quando deixamos de ser o filho mimado e passamos a entender e respeitar que a outra pessoa pensa e sente diferente. Talvez o grande segredo da longevidade afetiva signifique dividir as contas e os problemas, jamais pretender passar uma versão melhor do que realmente se é. Está sem dinheiro: procure solução em conjunto. Não peça empréstimo em segredo. Está sem vontade: explique o que está acontecendo, quais são as preocupações dominando a mente. Não fuja do contato visual. 

 

A teimosia é egoísmo. A teimosia substitui a compreensão, elimina a escuta, descarta a empatia. 

 

A teimosia é a crença de que você pode resolver sozinho e não precisa de ninguém. Se não precisa de ninguém, por que está casado? Precisar é confessar a importância de quem nos acompanha e recorrer a uma segunda instância dos desejos. 

 

O não acaba sendo a medida da saúde do casal. Quanto mais não mais realidade. É não comprar tudo o que se quer, é não fazer tudo o que ambiciona, é não realizar tudo – isso é crescimento pessoal. É negociar entre o possível e o ideal a todo momento dentro de si. 

 

Quem só quer agradar e ser agradado não saiu da infância e da birra maternal. Aceitar a recusa é aceitar a verdade. É admitir que não controla a vida, muito menos a opinião alheia. 

 

O risco é se anular para alguém se sobressair: amar pelos dois, elogiar pelos dois, esconder os males pelos dois, desculpar-se pelos dois. 

 

Sei que terei o dobro de trabalho em casa para explicar para minha mulher o valor de minhas escolhas. Mas não vivo mais sozinho para escolher à revelia de seu apoio. Eu continuo optando, mas com o seu apoio ou com sua oposição. Sua aprovação ou desaprovação me ajuda a avaliar melhor. É uma resistência fundamental para testar se o que procuro é sonho ou capricho. Agradeço o seu não assim como me envaideço do seu sim. 

 

O homem costuma escolher sozinho para apenas repartir as consequências quando não alcança o seu objetivo. O correto é partilhar a origem das vontades, desde a raiz, para não surpreender negativamente a parceria com decisões unilaterais, sem boicote, sem conspiração. 

 

Configura deslealdade não expor os movimentos do pensamento. E o homem não fala com medo de ser recusado, de não conseguir mais cumprir o seu projeto. Que enfrente a vaia no camarim porque depois no palco não tem como mudar a peça. 

 

A adoção do amor como conto de fadas faz com que um dos dois se torne submisso para esconder os defeitos e as imperfeições do relacionamento. 

 

Quem não consegue acolher o não do seu namorado ou namorada ou se seu marido ou esposa vai criar uma simbiose sombria. Porque não existirá independência, mas adulação. Não existirá discernimento e soma de duas personalidades, mas a exploração do mais forte sobre o mais fraco. 

 

Dizer não é uma prova de amor. Receber o não é o milagre do amor. 

Sobre o autor

Fabrício Carpinejar é escritor e jornalista. Enquanto muitos se elegem como último romântico, ele se declara como o primeiro. Afinal, faz tempo que se prontificou a entender o amor em suas crônicas e poesias. Aqui você tem sua versão escrita, mas você pode conferir a sua versão falada em vídeos no YouTube: http://bit.ly/2sAu6xB

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